❖ A malha física como DNA do ISP.
Tradicionalmente, o ISP brasileiro constrói sua operação em cima de uma malha de rede física extensa, buscando a maior cobertura possível. Esse modelo segue um padrão bem conhecido: um POP (Ponto de Presença) em cada cidade por onde a malha passa, garantindo atendimento local ao cliente. Só que essa malha não parou de crescer — e crescer rápido. Começou com enormes saltos via rádio, evoluiu para trechos de fibra com UTP na ponta, e hoje já é predominante a fibra óptica direto na casa do assinante (FTTH).
❖ Preciso chegar na cidade XPTO. E agora?
Toda expansão começa com essa pergunta simples — e a resposta nunca é simples. Ela abre uma lista de exigências que qualquer provedor conhece de cor:
● Fibra
● ONU
● OLT
● Sistema de autenticação de clientes
● Sistema de gestão e cobrança
● Link de internet
● Equipe interna e externa
● Suporte
● Engenharia
● ...e por aí vai.
❖ O jeitinho brasileiro de construir rede.
E, como bom brasileiro — que nunca desiste — com uma procurada aqui, outra acolá, e um bom parceiro de produtos, nasce o provedor: quilômetros de fibra e POPs equipados para atendimento. Ah, e não posso esquecer: cada POP carrega sua própria necessidade de infraestrutura — energia, ar-condicionado, baterias e, dependendo da criticidade do site(POP), até gerador. É assim que nasceu, e nasce todos os dias, um novo provedor no Brasil. Para mim, a definição é simples: gera emprego local, movimenta a economia das cidades por onde passa e força uma competitividade saudável no mercado. No fim das contas, quem ganha é o cliente, com mais opção, mais qualidade de atendimento e preços mais competitivos — e o próprio setor, que cresce como um todo. Não é provedor contra as grandes teles, é mercado se completando. Pensando nesse modelo de atuação, todo esse crescimento vem acompanhado de N tecnologias e melhorias que, para o cliente final, tornam a experiência ainda mais atrativa — sobretudo por não ter indisponibilidade. Falando por mim, que venho desde o finalzinho da era discada até o presente momento do FTTH (no português claro: fibra direto na casa do cliente), muita coisa melhorou. Na era dos rádios, chegou um momento em que financiar um trecho de fibra e depois atender o "bairro" com UTP se tornou pagável. Nesse momento no ápice do crescimento do UTP, vieram junto os problemas: raios, capacidades e mais um monte de loucura que só quem atuou na linha de frente, externamente, sabe o que é! Loucura total, rsrsrs. Dessa fase tenho boas recordações e aprendizados — muito estresse, mas também momentos que vão ficar pra sempre na memória. Agora, com a chegada ascendente do FTTH — a tal fibra na casa do cliente muita coisa mudou, inclusive a demanda por mais banda. Afinal, a casa do cliente hoje está 100% conectada: tem DVR, TVs espalhadas pela casa, celulares, tablets e notebooks, tudo ao mesmo tempo. Com essa demanda, o provedor brasileiro entendeu que era necessário estar sempre um passo à frente — com resiliência, capacidade operacional, bons equipamentos e um excelente backbone de distribuição de tráfego e monitoramento. Na minha opinião sempre estamos melhorando a experiência do usuário final.
Neste artigo, vou abordar um backbone construído do zero 100% com a fabricante Nokia cobrindo o que hoje é mais usado pelos ISPs tradicionais ou boa parte deles. Construir um backbone com:
● Core MPLS (OSPF / LDP / RSVP-TE);
● Dois BNGs redundantes ;
● Acesso PPPoE via OLTs;
● Sistemas de gestão e monitoramento;
● Peering BGP com uma operadora representando a internet.
❖ Por trás do laboratório: como o backbone foi montado 100% com Nokia.
Para simular esse backbone da forma mais realista possível, montei tudo em Containerlab, rodando o Nokia em toda infraestrutura.
A topologia:
O core é formado por 4 PEs (PE-01 a PE-04), rodando OSPF (área 0), LDP e RSVP-TE. Na borda, dois BNGs (BNG1 e BNG2, AS65300) concentram os assinantes PPPoE
Redundância dos BNGs: SRRP + MCS.
Serviços L2VPN com as modalidades: EPIPE | VPLS.
Diferente do VRRP "clássico" de outros fabricantes, aqui a redundância usa SRRP ( protocolo de redundância de assinantes específico da Nokia ) combinado com MCS (sincronização multi-chassi), que replica estado de assinantes, DHCP e SRRP entre os dois BNGs. BNG1 é master (prioridade 200), BNG2 é backup (prioridade 100), com um shunt dedicado entre eles para troca de mensagens. O que torna isso interessante de verdade é a priority-policy: ela rebaixa a prioridade automaticamente em dois cenários reais de falha — perda de rota pro "provedor" upstream, queda específica do link físico com a operadora e demais configurações que podem ser realizadas para acionar esse mecanismo. Isso faz o failover reagir ao cenário real de falha, não só ao "vizinho sumiu". Também é possível monitorar a porta dos assinantes/rede IGP, mais tem que ficar atento ao mpls que sinaliza as informações do SRRP + MCS internamente. Minha sugestão é sempre ter mais saídas do BNG para o backbone interno a fim de manter mais resiliência no MPLS ( isso envolve planejamento e desenho de rede ).
❖ Validação de acesso PPPoE: uma VLAN por OLT.
Simulei varias OLTs — cada uma discando PPPoE pros BNGs. E aqui vai uma lição que aprendi na prática, não só na teoria: cada OLT precisa da sua própria VLAN e do seu próprio serviço VPLS, nunca compartilhando domínio de bridging com outra. Cheguei a testar as duas dentro da mesma VPLS apontando pros mesmos PEs — resultado: fechou um anel de camada 2 e gerou tempestade de broadcast, com sessões PPPoE subindo e caindo sem parar. Isolei cada OLT com hub dedicado, e o problema foi resolvido até o presente momento.
❖ RADIUS | Sistema de gestão com failover cruzado .
A autenticação passa por RADIUS de verdade (FreeRADIUS), não por fallback estático. Cada BNG tem seu servidor local, mas também conhece o RADIUS do parceiro — se o local cair, o BNG continua autenticando pelo RADIUS do outro lado, atravessando o backbone MPLS. Mais vale salientar que se os dois Radius por alguma razão tiver alguma "bronca" cada BNG é capaz de autenticar o usuário normalmente.
❖ Simulando a internet.
Um AS externo (AS65100, "OPR") faz peering BGP com os dois BNGs, anunciando prefixos que representam a internet — para dar aquele sabor familiar nos testes.
❖ Comutação entre BNGs: diagrama explicativo.
❖ Construí uma pequena automação para realizar as pesquisas de forma mais rápida e organizada nos roteadores BNGs.
❖ Fechando essa reflexão.
No fim das contas, tudo isso — POP, fibra, backbone, redundância — é sobre uma coisa só: fazer a internet chegar direito na casa das pessoas, sem cair e sem instabilidade.
Eu comecei minha jornada no final da internet discada e hoje monto laboratório simulando backbone de operadora. Nesse caminho todo, uma coisa não mudou: rede boa não acontece por acaso, ela é construída com escolha certa de equipamento e desenho pensado para falha real (não só pro cenário perfeito).
E aí que a Nokia entra pra mim: não como "mais um fabricante", mas como uma peça fundamental que tem suporte a esse tipo de desenho exigente — redundância de verdade, protocolo de gerência padrão, estabilidade sob carga. Isso é o que separa um provedor que sobrevive ao crescimento de um que aperta o passo e trava no meio do caminho.
No fim, ser provedor no Brasil ainda é isso: um bocado de suor envolvido, esforço e muita dedicação com cada vez mais tecnologia séria por trás do palco. E é justamente essa mistura que me faz gostar tanto desse trabalho.
O contexto é mostrar o quanto a evolução para os serviços de última milha vem evoluindo.